Poder medicinal, saber ancestral
ERVAS
Boldo, pariri, copaíba, andiroba. Quem não é do Pará pode até estranhar os nomes, mas a tradição popular do nosso estado tem muito a dizer sobre as propriedades medicinais de chás e óleos originários das nossas plantas nativas. Seja o chá de boldo para combater problemas no fígado ou no sistema urinário, ou o óleo de andiroba para tratar de traumatismos, esses conhecimentos repassados por gerações são tão arraigados à cultura dos paraenses que é difícil não se ouvir falar deles quando há alguém doente.
Não é necessário ir longe para encontrar quem use, acredite ou ensine como usar as ervas medicinais.
Na feira do Ver-o-Peso, as ervas vendidas servem não apenas para banhos que atraem sorte ou amor. Também é possível encontrar o pariri, que é usado tradicionalmente para inflamações ou anemia, ou o hortelãzinho, usado em caso de problemas respiratórios, entre várias outras ervas e usos. “É um conhecimento que eu aprendi com a minha mãe, Dona Cheirosa, e que ela aprendeu com a mãe dela, que era conhecida como Mãe Velha, e que vem sendo passado há muitos anos em nossa família”, diz a erveira Beth Cheirosinha, que há 45 anos trabalha com ervas no Ver-o-Peso.
Mas não é só no conhecimento popular que as ervas medicinais encontram lugar. Nas últimas décadas, estudos realizados por universidades e outras instituições de pesquisa têm levado para dentro dos laboratórios o conhecimento popular e trabalhado a partir dele para identificar as potencialidades das nossas plantas para aproveitamento medicinal, sobretudo para a produção de medicamentos fitoterápicos.
“O conhecimento popular pode ajudar a identificar que uso pode ser feito de uma planta. Por exemplo, se um pesquisador procura uma substância que possa ser usada para asma, ele não ia poder procurar entre todas as espécies do planeta até encontrar uma que tivesse a ação que ele procura. Se o conhecimento popular já diz que uma ou outra espécie é usada pra asma, o pesquisador pode ir diretamente fazer os testes com essas espécies no laboratório”, explica o pesquisador da Embrapa, Osmar Lameira, que há 20 anos pesquisa as plantas medicinais da Amazônia.
Por isso, pode-se dizer que a disponibilidade de espécies de uso medicinal, juntamente com o conhecimento tradicional, é um possível ponto de partida para pesquisas realizadas na área de farmácia e na medicina. A importância dessas pesquisas está expressa, por exemplo, na construção do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, lançado pelo Ministério da Saúde em 2007 e que visa, nos próximos anos, implantar o uso desses conhecimentos no sistema público de saúde.
Produção de Fitoterápicos é uma forma de gerar renda. A indústria farmacêutica é uma das que necessitam de maior investimento e o Brasil não tem tradição nessa área. No entanto, a produção de medicamentos fitoterápicos, a partir das nossas plantas medicinais, pode ser uma atividade que promova desenvolvimento econômico e social.
“Nós devemos nos preocupar, e temos condições de fazer fitoterápicos de qualidade, porque a matéria-prima acontece aqui e a técnica nós já dominamos”, diz o professor e pesquisador de fitoterapia da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Wagner Barbosa. O pesquisador lembra: os fitoterápicos podem gerar renda para comunidades que cultivam as plantas de interesse medicinal, e também “são uma oportunidade de melhorar a qualidade da política de saúde pública no país”.
MEDICINAIS
O Ministério da Saúde lançou em 2009 a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, um documento que reúne o nome de 71 espécies de plantas medicinais, sobre as quais já existem estudos que apontam sua potencialidade. Algumas dessas espécies são largamente utilizadas em nossa cultura:
BABOSA
O nome compreende duas espécies diferentes, a Aloe vera e a Aloe barbadensis, a primeira já bastante utilizada pela indústria cosmética. Estudos apontam sua aplicação, sobretudo, para cuidados dermatológicos e cicatrizantes.
ANADOR
Uma erva utilizada comumente em cortes, afecções nervosas, catarro bronquial. De fácil cultivo e propagação em clima tropical.
PARIRI
Sua ação anti-inflamatória é o que vem sendo mais estudado atualmente.
PIRARUCU
Também conhecida como folha da fortuna. Usada no tratamento de furúnculos e também na produção de xarope para tosse.
(Diário do Pará)


